A indenização
Luis Fernando Verissimo
Mulheres gostavam de ser fotografadas pelo Artêmio. O Artêmio era famoso porque fotografava mulheres como ninguém. Você via uma fotografia de mulher diferente de tudo o que já tinha visto e nem precisava apertar os olhos para identificar o nome do fotógrafo naquele tipo pequenininho: era certamente o Artêmio.
Diziam que o Artêmio tinha um método secreto para fazer as suas fotos de mulheres. Como não deixava ninguém acompanhar as sessões de fotos, as especulações se multiplicavam. Diziam que a expressão de uma certa socialite numa fotografia célebre fora conseguida com um tapa do Artêmio. A própria socialite não confirmava nem desmentia. E o Artêmio não falava.
Sabia-se pouco sobre a vida do Artêmio. Ele passara uma grande temporada na selva amazónica, fotografando bichos e índios. Um dia voltara para a cidade grande e montara seu estúdio. Em pouco tempo estava famoso. E só fotografava mulheres. Mulheres lindas.
As que contavam como era ser fotografada pelo Artêmio lembravam que durante as sessões ele falava. Não parava de falar. Enquanto fotografava, dizia coisas como:
- Você está nua, acaba de sair da piscina, e o Brad Pitt vem na sua direção com um roupão numa mão e um Martini seco na outra, para você escolher.
- Você está lendo Nietzsche e de repente levanta a cabeça para pensar no que leu, com a boca ligeiramente aberta.
- Você acaba de ouvir no rádio que a Indonésia desapareceu.
- Você comeu um sonho igual ao que sua avó fazia e não sabe se ri de prazer ou chora de saudade.
- Você está tendo um orgasmo múltiplo e já chegou ao quinto.
- Você está pensando na finitude humana.
Mas nenhuma falava em ter recebido um tapa do Artêmio.
Um dia, depois de uma sessão, uma moça se atrasou no camarim e quando passou pelo estúdio viu uma cena insólita: Artêmio falando com um índio. Artêmio discutindo com um índio seminu, na língua deste. O cocar que o índio usava parecia ser o de um cacique. E o Artêmio estava tão agitado, discutindo com o cacique, que nem notara que a moça passara pelo estúdio e vira tudo.
É claro que, depois disto, as especulações sobre o misterioso fotógrafo só cresceram. E, por mais fantasiosas que fossem as especulações, nenhuma chegou perto da verdade. Até hoje, ninguém sabe que depois de fotografar uma tribo inteira na selva amazónica e roubar as suas almas, pois era isto que sua câmara fazia, Artêmio fora intimado pelo cacique a indenizar a tribo com almas novas e bonitas, as mais bonitas que encontrasse, sob pena de ser caçado, esquartejado e talvez comido. Não adiantava fugir da selva. Viriam atrás dele para cobrar a indenização.
E ninguém pode imaginar o que Artêmio e o cacique discutiam tão acaloradamente no estúdio. Artêmio dizendo que não poderia fornecer as almas brancas pedidas, pois por mais que tentasse não conseguia alcançá-las com sua câmara, já que ninguém sabe onde as mulheres bonitas guardam a alma, e o cacique avisando que Artêmio não os enrolasse e fazendo pouco da oferta do Artêmio de publicar um belo livro de mesa de centro com as mulheres que fotografava como ninguém e dar para os índios, com o argumento de que "índio não tem mesa de centro!".
Domingo, 24 de agosto de 2008.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.